2 de set de 2011

O CRISTÃO E O NARCISISMO: "Espelho, espelho meu: há alguém mais belo do que eu?"


Muito válido lermos o texto abaixo, Indico você ler !!
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O CRISTÃO E O NARCISISMO: "Espelho,


espelho meu: há alguém mais belo do 


que eu?"


Fonte: http://bibliotecadigital.ftsa.edu.br/v1/index.php?option=com_content&view=article&id=5:o-cristao-e-o-narcisismo-qespelho-espelho-meu-ha-alguem-mais-belo-do-que-euq-&catid=10:teologia-hoje-numero-1-2003&Itemid=17


Resumo: O narcisismo, conquanto seja uma doença da alma também é considerado pecado à luz da Teologia Reformada, pois é um tipo de orgulho: orgulho de si mesmo. Embora o cristianismo pregue a simplicidade de vida e o altruísmo, há de se considerar que nos templos cristãos alguns têm estado amarrados inconscientemente aos traços de vida narcisista. São narcisistas sem saberem. Descobrir as "marcas" narcisistas, que permeiam as igrejas evangélicas, e analisá-las sob o foco das Escrituras Sagradas é a proposta do autor.

O termo "narcisismo" surgiu pela primeira vez em Freud, em 1910, em seus escritos sobre a homossexualidade. Mais tarde Freud fez uma distinção entre o narcisismo primário e o narcisismo secundário.

2 - Os traços de uma personalidade narcisista podem ser particularmente comuns em adolescentes, o que, não necessariamente significa que o indivíduo desenvolverá um transtorno da personalidade narcisista. Curiosamente, os homens perfazem 50 a 75% do total dos indivíduos com o diagnóstico de transtorno da personalidade narcisista.

3 - Narcisismo é o termo empregado para todo aquele que, por alguma razão, desenvolve uma personalidade semelhante à de Narciso, cuja estória foi relatada pela primeira vez por Ovídio. A narrativa declara que Narciso se achava muito belo e admirava-se constantemente. Vivia enamorado de si mesmo, numa profunda egolatria. Todos os dias não deixava de se contemplar nas águas dos lagos, pois estas refletiam sua imagem. Até que um dia ele quis se ver mais de perto e morreu afogado.

Um Narciso (...) é alguém que crê encontrar-se olhando-se no espelho. Sua vida consiste em procurar seu reflexo no olhar dos outros. O outro não existe enquanto indivíduo, apenas enquanto espelho. Um Narciso é uma casca vazia, que não tem existência própria, é um 'pseudo' que busca iludir para mascarar seu vazio"(1).

4 - Para Kernberg, as principais características das personalidades narcísistas são:

um sentimento de grandeza, um egocentrismo extremado e uma total falta de empatia pelos outros, embora sejam eles próprios ávidos de obter admiração e aprovação. Esses pacientes sentem uma inveja daqueles que parecem possuir coisas que eles não têm, ou simplesmente têm prazer com a própria vida. Não apenas lhes falta profundidade afetiva e não conseguem compreender as emoções complexas dos outros, como seus próprios sentimentos não são modulados e passam por arroubos rápidos seguidos de dispersão. Ignoram particularmente os verdadeiros sentimentos de tristeza e de luto: essa incapacidade de experimentar reações depressivas é um traço fundamental de sua personalidade. Quando são abandonados ou decepcionados, podem mostrar-se aparentemente deprimidos, mas, a um exame mais atento, trata-se de raiva ou de ressentimento com desejos de vingança mais que de uma verdadeira tristeza pela perda da pessoa que eles estimavam"(2).

5 - Antes de tecer considerações sobre o narcisismo na esfera eclesiástica, há de se observar, ainda, que no DSM IV, o manual de classificação internacional das doenças mentais(3), a personalidade narcísica pode ser considerada como aquela na qual se apresentam pelo menos cinco de nove manifestações características:

1)o sujeito tem um senso grandioso da própria importância;

2) é absorvido por fantasias de sucesso ilimitado, de poder;
3) acredita ser "especial" e singular;
4) tem excessiva necessidade de ser admirado;
5) pensa que tudo lhe é devido;
6) explora o outro nas relações interpessoais;
7) não tem a menor empatia;
8) inveja muitas vezes os outros;
9) dá provas de atitudes e comportamentos arrogantes(4).

6 - O Perfil do Narcisista
As características próprias do narcisismo, elencadas pelo manual de classificação internacional das doenças mentais, nos dão um claro mapa do perfil de Narciso. O narcisista rotineiramente superestima suas capacidades pessoais, além de exagerar suas realizações. Ele também presume que os outros indivíduos atribuem a ele os mesmos valores que ele próprio se dá, o que o leva a surpreender-se quando não recebe o louvor que espera e julga merecer.

7 - O narcisista acaba entendendo que somente será compreendido por indivíduos iguais a si, quanto ao seu valor, obviamente. Ele se julga tão precioso, que nem todos podem compreendê-lo. Por isso, seleciona seus "amigos" de modo a relacionar-se apenas com as pessoas que julga serem especiais na sociedade; por exemplo: pessoas que tenham uma situação econômico-financeira elevada.

8 - O narcisista, invariavelmente está sempre em busca de elogios. Ele também não pensa no bem-estar do outro, apenas no seu; por isso sempre espera que os outros lhe sirvam. Um narcisista não consegue ouvir um "não" como resposta para quaisquer propostas que se fizer. Mais cedo ou mais tarde ele se inflamará contra os que lhe dizem "não", ainda que por razões justificáveis. O narcisista espera grande dedicação da parte dos que estão ao seu lado, o que o leva a sobrecarregá-los de muito trabalho sem considerar as consequências que sua ação possa ter sobre suas vidas.

9 - O narcisista também guarda rancor quando vê o outro alcançar sucesso. O sucesso ou a posse do outro lhe agride profundamente, levando-o ao seu secreto mal-estar rancoroso, pois, em sua visão, ele - o narcisista - é quem se julga merecedor de todas as realizações, admiração ou privilégios. Tal postura mental leva Narciso a desvalorizar publicamente as contribuições do outro que tem sido bem-sucedido, particularmente quando o bem-sucedido recebe reconhecimento ou elogios por suas realizações. O narcisista, quando não pode desmerecer o sucesso do outro, cala-se profundamente, pois intensiona fazer cair em esquecimento o feito e a grandeza de quem foi bem-sucedido.

10 - Narciso e a Vida Cristã
Ora, narcisismo, conquanto seja uma doença da alma, também é pecado porque é um tipo de orgulho: orgulho de si mesmo. Embora o cristianismo pregue a simplicidade de vida e o altruísmo, há de se considerar que nas igrejas evangélicas, alguns têm estado amarrados inconscientemente a Narciso. São narcisistas sem saberem.

11 - O narcisista vive se olhando no espelho e se admirando eternamente, por isso ele não enxerga a beleza do outro. Aliás, os outros só são vistos por ele quando este quer admirar-se em relação à feiúra do outro. O outro serve de referencial para destacar sua pretensa beleza. O narcisista faz de tudo para que todos o elogiem e por isso, quando outro recebe elogios, não se conforma e tampouco admite que outro receba as honras que lhe caberiam exclusivamente.

12 - Sendo o narcisista belo aos seus próprios olhos, projeta-se no outro suas imperfeições. Não acredita na beleza do outro. Nada que o outro é, faça ou tenha é belo. O outro é sempre feio na conduta, nas motivações, nas palavras, no vestuário, sua mulher é feia, falsa, seus filhos são malcriados, sua casa é de um mau gosto tremendo, seu hálito é horrível, seu sorriso é cínico, seu esforço para melhorar de vida é um reflexo de sua falta de fé, pois - pensa Narciso em relação ao outro - o que crê nada faz, apenas espera que Deus mande pão do céu. Para o evangélico Narciso a sabedoria do outro é terrena e demoníaca, enquanto a dele é celestial e perfeita; enfim, para o narcisista o outro será sempre feio em tudo o que fizer, enquanto ele, sempre belo, pois fora agraciado por Deus.

13 - Narciso sempre imagina que todos o invejem e o admirem excessivamente. Assim, quando Narciso vê outro sendo honrado e abençoado por Deus enche-se de amargura, cria fantasias que justifiquem o seu descontentamento e acredita nelas, mesmo não havendo respaldo verídico: que importa a verdade? Se Narciso vive sua fantasia de beleza, pode também tentar fazer o outro acreditar em sua fantasia de feiúra. E ele fará tudo para que o outro acredite que é feio e impuro, enquanto ele é maravilhosamente belo. Narciso acredita em seu mundo imaginário, no qual os outros invejariam sua beleza. Ele imagina sempre que os outros têm ciúmes dele, de sua beleza no trato com a vida. Segundo sua ótica os outros querem ser como ele.

14 - Assim, é inconcebível que entre cristãos haja quem seja conduzido pela alma narcisa. Mas infelizmente os Narcisos também se encontram entre os cristãos, todos muito bem disfarçados de santos, humildes, até com ares angelicais, que adoram uma bajulação, uma honraria, uma festa de reconhecimentos pelos "serviços prestados". Os cristãos Narcisos amam "os primeiros lugares" e odeiam quando outros ameaçam tirar-lhes o lugar que julgam ser-lhes cativo e eterno. O discurso de Narciso é de renúncia, mas sua alma anseia desesperadamente tudo que lhe faz bem e não abrirá mão de nada que perturbe sua imaginária beleza.

15 - Narciso não põe a mão no fogo pelo outro, pois a beleza de suas mãos será prejudicada. Na igreja, esconde-se todas as vezes que alguém precisa de sua ajuda. Finge que não vê e mais tarde dá a desculpa de que ninguém pediu sua ajuda; afirma que sempre estivera ali, mas não lhe solicitaram socorro. Que o outro se estrepe, mas ele não porá sua beleza em risco. Narciso é mudo quando está em público e o assunto é polêmico. Ele jamais comprometerá sua "imagem". Quando puder, falará somente o que pensa ser belo: dará exemplos de si mesmo, pois acredita ser o paradigma da estética divina. Dessa forma, Narciso não tem cicatrizes aparentes. Suas cicatrizes são internas e ele faz, inconscientemente, questão de não as revelar a ninguém. Todos precisam admirá-lo, pois isso lhe faz muito bem; faz com que se sinta seguro. No cristianismo é possível encontrar um narcisista muito bem escondido atrás de todo tipo de cristão, desde pastores, líderes de igrejas, regentes de corais, músicos, até ao mais anônimo dentre a comunidade.

16 - Para os contaminados pelo espírito narcisista, a Palavra de Deus adverte: "Não sejais sábios aos vossos próprios olhos" (Rm 12:16) e ainda: "Seja outro o que te louve" (Pv 27:2). Ao cristão autêntico não cabe admiração própria além da que Deus tem por ele. Fica-lhe bem se ver na medida exata da estatura do "novo homem", feito em Cristo Jesus. Do contrário, assim como na estória grega, o que se deixa levar pelo narcisismo sucumbirá ao seu próprio modo de pensar. Erich Fromm tinha razão, quando escreveu, consoante Freud, que "o narcisismo é a essência de todas as enfermidades psíquicas graves. Para a pessoa narcisistamente afetada, só há uma realidade, a dos processos do seu próprio pensamento, dos seus sentimentos e de suas necessidades"(5).

17 - Cabe aos filhos de Deus, àqueles que passaram por uma real conversão a Jesus Cristo, avaliarem-se constantemente para se esquadrinharem diante do Senhor. O modo como nos vemos revela o quanto estamos próximos ou distantes do Senhor. Narcisismo é diametralmente contrário ao cristianismo, pois a proximidade do pecador com o seu Senhor lhe fará ver-se mais feio, mais sujo e desesperadamente necessitado da graça de Deus. Assim como Pedro, ao aproximar-se de Jesus, dirá: "Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador". O cristão que busca intimidade com o Senhor começa sua caminhadacom uma espontânea e pessoal quebra de seus valores estéticos, pois eternamente belo é o seu Senhor, que graciosamente o faz belo, não na medida de seus olhos, mas na medida dos olhos de seu Criador e Pai.

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NOTAS* Professor da FTSA nas �reas de gradua��o e da p�s-gradua��o.
1 HIRIGOYEN, Marie-France. Ass�dio Moral: a viol�ncia perversa no cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. p. 143.
2 KERNBERG, O. "La personnalit� narcissique", in Borderline condition and pathological narcissism. Paris: S/Ed, 1975.
3 DSM IV, Manual de Classifica��o Internacional das Doen�as Mentais. Crit�rios Diagn�sticos para F60.8-301.81 (Transtorno da Personalidade Narc�sica).
4 HIRIGOYEN, Ass�dio Moral. p. 142.
5 FROMM, Erich. Psican�lise da Sociedade Contempor�nea. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1959. p. 48.

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